Guia prático do Crowdsourcing: Onde, como e por que adotar essa ideia?

Quando falamos de crowdsourcing, um modelo criativo em que algo é produzido a partir do conhecimento das multidões, normalmente as pessoas associam essa palavra ao mundo digital, à internet. No entanto, apesar de a web ter de fato facilitar o uso desse sistema em diversas funções, a verdade é que a ideia já existia por aí antes mesmo do surgimento dos computadores.

No século XVIII, quando o fluxo de cargas através dos oceanos atingiu o seu ápice, não existia um sistema muito preciso para calcular a longitude dos navios em alto-mar — algo que, claramente, trazia diversos problemas para a economia. Foi aí que o governo britânico resolveu lançar o Longitude Prize, um prêmio que pagaria 20 mil libras — valor que hoje equivaleria à dezenas de milhões de euros — para qualquer pessoa que conseguisse resolver essa questão.

E o que aconteceu com isso? John Harrison, um criativo relojoeiro inglês (sem educação formal), acabou apresentando o projeto vencedor que é usado até hoje por embarcações: o relógio marítimo.

Com toda essa história você talvez esteja se perguntando o que tudo isso tem a ver com a nossa realidade atual. Como o crowdsourcing poderia ser colocado em prática hoje em dia nas empresas e até na comunidade? Pois é exatamente o que iremos abordar por aqui.  

Assim como aconteceu com os ingleses de séculos atrás, você vai ver que hoje grandes empresas como a Netflix e a IBM continuam a lucrar (e muito!) com o uso do crowdsourcing dentro de seus escritórios e principalmente na hora de encontrar alguma solução criativa para os seus negócios.  

Quer saber como elas fazem isso? Então vamos lá!

5 maneiras criativas de aplicá-lo ao seu negócio inovador

Criada no final do século XIX, a IBM sempre teve em seu DNA a vontade de ser uma empresa internacional — não por acaso o seu nome significa International Business Machines. E para qualquer empresa que, assim como ela, trabalha com algum tipo de negócio inovador e pretende estar presente em diversos países, é de suma importância ter a ideia de crowdsourcing muito bem estruturada em seu dia a dia. Afinal, como seria possível lidar com diferentes culturas e ainda focar na inovação sem ajuda de várias pessoas e da comunidade?

Para isso, tanto essa gigante da tecnologia quanto outras marcas adotam as seguintes ideias para tocar os seus negócios:

Deixe o caminho aberto para novas ideais

Ao contrário do que muitos acreditam, hoje as empresas não precisam de um novo Steve Jobs. Muito pelo contrário: em vez de focar apenas nas opiniões de uma ou outra pessoa, as marcas de maior sucesso da atualidade são exatamente aquelas que escutam o que o seu público diz e prestam atenção no que os seus próprios funcionários pensam. Quer um bom exemplo de empresa que funciona assim? Pois a Pixar — que, inclusive, recebeu muita ajuda de Jobs em seu começo — é desse jeito.

Apesar de ela contar com um grupo de gerentes e diretores, qualquer pessoa que tenha uma boa ideia (para um curta-metragem, filme ou até para solucionar algum bug de programação) pode apresentá-la aos superiores e, se for interessante, acaba ganhando espaço para colocá-la em prática. Os premiados curtas La Luna e O guarda-chuva azul, por exemplo, são alguns que nasceram dessa forma.

 

Faça reuniões de brainstorm com as equipes

Bastante conhecidas pelos profissionais da comunicação, as reuniões de brainstorm são momentos em que vários funcionários de diferentes áreas de uma empresa se juntam para apresentar soluções para o problema de algum cliente. No entanto, até mesmo no campo da comunicação, é difícil encontrar marcas que têm a cultura de agendar esses tipos de reuniões para resolver problemas da própria empresa. Por isso, aquelas que têm como costume fazer isso acabam saindo na frente da concorrência, como é o caso da IBM.

Além de estabelecer reuniões regulares de brainstorm para resolver problemas internos, a IBM, por meio de uma metodologia chamada Design Thinking — recheada de conceitos do modelo crowdsourcing —, também nunca deixa um time de fora dessas reuniões, trazendo diversas visões diferentes para tentar resolver uma só questão.

Crie a cultura interna de feedbacks

De acordo com Douglas Stone, autor do livro Thanks for the Feedback: The Science and Art of Receiving Feedback Well (“Obrigado pelo retorno: A ciência e a arte de receber bem os feedbacks”), tanto o nosso sucesso pessoal quanto profissional depende de receber e entender algum retorno sobre como está indo o nosso trabalho dentro de uma empresa, e isso é algo totalmente relacionado ao sistema de crowdsourcing.  

Empresas que têm a cultura de mostrar para os seus funcionários como anda o rendimento deles, a fim de corrigir ou continuar com uma postura que já está boa, acabam por criar um ambiente com menos “conversas de corredor” e mais pró-atividade em busca de melhores resultados, que são bons para todos daquele negócio.

Não esconda os problemas da empresa

No começo desse post, demos o exemplo de como o governo britânico incentivou, ainda no século XVIII, a população a buscar alguma solução que calculasse a longitude dos navios em alto-mar. Mas qual foi o primeiro passo para que isso de fato funcionasse? Antes de mais nada os ingleses tiveram que deixar claro que havia um problema acontecendo por ali.

Resumindo: qualquer empresa que pretende avançar com ajuda do crowdsourcing precisa, antes de mais nada, deixar em aberto para os seus funcionários ou para a população em geral quais são os seus problemas. Mas por que isso é tão importante?

Porque quanto mais pessoas de culturas e olhares diferentes estiverem focadas na busca de uma resposta, melhor — e isso não é possível se elas não estiverem cientes do problema. Tenha em mente que antes que o desconhecido relojoeiro John Harrison resolvesse o problema do governo britânico, grandes nomes da ciência como Isaac Newton e Edmond Halley também já haviam procurado alguma solução.   

Não menospreze a ideia dos outros

Por fim, devemos dizer que uma das melhores formas de colocar o crowdsourcing funcionando em prol da inovação do seu negócio é não menosprezar a ideia apresentada por outras pessoas para resolver algum tipo de problema.

Apesar de as críticas, quando feitas de forma construtiva, e os feedbacks serem úteis para ajudar a mover um projeto para frente, é importante saber diferenciar esse tipo de abordagem dos perigosos julgamentos, que normalmente acabam por tirar a vontade de alguma pessoa de ajudar a encontrar alguma solução interessante para a comunidade.

Portanto, se você achar que uma ideia apresentada pode não ser boa o suficiente, em vez de menosprezá-la, argumente porque ela não daria certo ou o que falta para que ela funcione corretamente.

Por meio desses passos é possível criar um ambiente bastante favorável à inovação em qualquer empresa. E para confirmar ainda mais isso, iremos listar agora para você algumas das principais vantagens e alguns dos grandes nomes que já lucraram com esse sistema.

As 5 principais vantagens do crowdsourcing

No tópico anterior nós falamos como o crowdsourcing pode ser usado pelo seu negócio para criar um ambiente inovador dentro da empresa. Agora, falaremos de um lado mais abrangente do assunto. Iremos mostrar com exemplos reais quais são as maiores vantagens que sua marca pode ter ao adotar o sistema de crowdsourcing.

We do Logos: usando o crowdsourcing para melhorar a sua comunicação visual

Imagine que você está começando agora o seu negócio e precisa criar um logotipo, cartões e até um site. Para isso você pode procurar uma agência de publicidade, pagar uma pequena fortuna e esperar algum bom tempo para ver o trabalho pronto ou apostar em plataformas como a da brasileira We do Logos, em que é possível escolher colocar o projeto da sua empresa por lá e esperar a melhor proposta de um dos milhares de designers que tem por lá.

Ou seja: é o crowdsourcing sendo usado para entregar até mesmo a melhor saída visual para a sua marca.

Kickstarter e Catarse: como a multidão pode dar vida a novos negócios

Disponível no catálogo da Netflix, o documentário Capital C mostra a vida de 3 pequenos empresários que, mesmo com uma boa ideia na cabeça, não tinham nenhum dinheiro na mão e resolveram apostar no modelo de crowdfunding (ou seja, financiamento coletivo, uma espécie de “primo” do crowdsourcing) para dar vida aos seus projetos. Mas como isso funciona?

Por meio de sistemas como o do Kickstarter ou o do Catarse, uma pessoa ou uma empresa cria uma página em que apresenta um determinado projeto e pede, por ali mesmo, a ajuda financeira dos usuários para que ele se torne realidade. Com isso, se as pessoas acreditarem naquela ideia, elas pagam para que você possa produzi-la.

É o conceito do crowdsourcing, da sabedoria e ajuda da multidão, sendo utilizada também para o financiamento de projetos.

Wikipedia: como o crowdsourcing ajuda a democratizar o conhecimento

Quem tem mais de 30 anos talvez ainda se lembre de como às vezes era difícil encontrar determinados conteúdos para a produção dos trabalhos escolares. E não é à toa: até a metade dos anos 90 menos de 1% da população mundial tinha acesso à internet e nós nem sonhávamos em ver projetos como a Wikipedia no por aí. No entanto, com a chegada de mais pessoas à web, foi possível ver esse tipo de projeto ganhar vida e mudar a maneira como nos relacionamos com o conhecimento.

Hoje não precisamos mais de fazer buscas surreais dentro de enciclopédias como a Barsa, já que “todo o conhecimento do mundo” está ao nosso alcance e sendo produzido de forma colaborativa. Várias pessoas colocam ali seu conhecimento sobre determinado assunto, enquanto outros times revisam esse conteúdo a fim de deixar on-line apenas aquilo que é realmente comprovado.

Linux: como a sociedade pode ser usada para criar novas tecnologias

Tal como o WIndows, o Linux é um sistema operacional que foi criado no início da década de 90 e é um dos favoritos da comunidade de programadores. No entanto, talvez a grande bandeira levantada por esse sistema seja a forma como ele é produzido.

Com uma base completamente gratuita, o Linux é desenvolvido por meio de uma multidão de milhões de desenvolvedores ao redor do mundo que atuam em uma ou várias versões desse mesmo sistema. Mas qual é o lado bom disso?

Além de ter um número maior de pessoas buscam aperfeiçoar e corrigir problemas do sistema, por causa dessa colaboração, é muito fácil encontrar alguém da comunidade que possa dar suporte gratuito tanto para novatos na tecnologia quanto para outros programadores que estejam enfrentando dificuldades com algum “bug”.

Netflix: como o crowdsourcing pode ajudar a melhorar o seu negócio

Com mais de 70 milhões de assinantes ao redor do mundo, o serviço de streaming Netflix é hoje um dos nomes mais comentados do mercado. No entanto, mesmo com tanta fama, talvez pouca gente talvez saiba que aquele eficiente sistema de indicação de filmes e séries da plataforma foi aprimorado com base em um concurso do estilo crowdsourcing.

Buscando aprimorar o algorítimo da plataforma, em 2006 o presidente da empresa, Reed Hastings, lançou uma competição chamada Netflix Prize, que daria 1 milhão de dólares para quem entregasse um sistema que fosse pelo menos 10% melhor do que aquele usado pela Netflix. Depois de analisar vários concorrentes, o prêmio foi dado para uma equipe de desenvolvedores chamada BellKor’s Pragmatic Chaos, que não apenas levou o cheque para casa como também aprimorou a já conhecida — e bilionária — plataforma.

Resumindo: para encontrar uma boa saída visual para a comunicação da empresa, para achar investidores para um projeto, para criar uma boa base de conteúdo, ou para desenvolver tecnologias e aprimorar um tipo de negócio, é sempre interessante poder contar com as possibilidades do crowdsourcing.

Como você pode ver também, o principal motor para que tudo isso funcione é ter um bom engajamento da comunidade — e é sobre isso que vamos falar a seguir.

Engajando uma comunidade

Presente na própria palavra (“crowd” significa “multidão”, em inglês) a multidão, ou a comunidade, é o fator principal que move o crowdsourcing. E às vezes, essa comunidade pode usar ferramentas colaborativas para melhorar a vida dela mesma. Vamos entender melhor como isso funciona com alguns exemplos:

Prize2theFuture

Lançado em 2011, o projeto Prize2theFuture é um bom exemplo de como a comunidade pode usar o seu conhecimento para obter melhores respostas para os seus problemas. E como ele funcionava?

Assim como alguns modelos de participação colaborativo que temos no Brasil, a ideia aqui era que a comunidade criasse ideias que resolvessem dificuldades ligadas ao transporte, saúde e outros itens ligados à cidade, e procurassem por ali investidores (ou doadores) que estivem interessados em ajudar a causa.

A prefeitura de San Jose

Com vários problemas acontecendo diariamente, é bastante difícil para uma grande prefeitura ficar de olho em todos os pormenores que acontecem em uma cidade. Pois em San Jose, um reduzido distrito do estado da Califórnia, os próprios moradores resolveram criar um aplicativo para iPhone em que eles apontariam alguns problemas que estariam acontecendo na cidade, tirando fotos e marcando em um mapa com GPS o local exato onde estaria aquilo. Assim, além de outros moradores da comunidade poderem resolver aquela demanda, a própria prefeitura pode ficar sabendo e atuar, quando for o caso.

Waze

Nos dois exemplos anteriores que apresentamos nesse tópico, mostramos como as comunidades às vezes criam soluções para resolver os seus próprios problemas, certo? No entanto, às vezes algumas empresas também criam soluções para a sociedade por meio do uso de informações da própria comunidade, como é o caso do famoso aplicativo Waze.

Avaliado em mais de 1 bilhão de dólares, o grande lance do aplicativo está no fato de ele usar os dados enviados pelo GPS por vários usuários para entregar as melhores rotas para quem deseja se deslocar do ponto A ao ponto B dentro de uma cidade. Além disso, o aplicativo ainda consegue informar como está o trânsito em tempo real e em quais ruas aconteceram acidentes.

Por ajudar de forma prática a população a lidar com o tráfego dentro das grandes cidades, não é a toa que o Waze hoje seja considerado uma ferramenta essencial para quem dirige dentro de qualquer centro urbano.

BlaBlaCar

Outro aplicativo que usa o crowdsourcing para criar novas formas de mobilidade é o francês BlaBlaCar, que permite conectar aqueles que vão fazer um determinado trajeto e têm espaço no carro àquelas pessoas que precisam passar por aquele trajeto e estão em buscar de uma carona. Apesar de não ser tão conhecido como o Waze, esse projeto já tem sido bem recebido pela população e vem criando novas formas de engajamento da comunidade.

Facebook Safety Check

O modelo de crowdsourcing já foi usado também pelo Facebook, para encontrar pessoas que estivessem perdidas depois do terremoto que assolou o Nepal em 2015.

Em uma ferramenta chamada Safety Check, o usuário colocaria o nome de algum amigo na plataforma e ela entendia se ele estava realmente perto de uma das áreas afetadas. Dessa forma, a pessoa procurada poderia responder por ali mesmo dizendo que estava bem ou teria sua foto divulgada para que as pessoas daquela localidade pudessem informar o seu paradeiro.

Com vários exemplos e sistemas que têm se beneficiado do uso do crowdsourcing, podemos dizer sem sombra de dúvidas que ele é tão interessante para a sociedade quanto para as empresas, certo? No entanto, não tem jeito: para que uma marca consiga obter bons resultados com o conhecimento da multidão, ela tem que ter a inovação em seu DNA.

Inovação e crowdsourcing: ferramentas mais que aliadas

Em um estudo realizado em 2013 pelo Google juntamente com o NIELSEN — empresa norte-americana proprietária do IBOPE no Brasil —, foi visto que uma boa parte das pequisas que ocorrem na internet por meio de smartphones acontecem quando o usuário está dentro de alguma loja. E o mais interessante: muitas vezes essas pesquisas buscam fazer um comparativo de preços de produtos. O que isso tem a ver com crowdsourcing? Muita coisa, principalmente para aquelas empresas que conseguem coletar e usar esses tipos de dados a seu favor.

Com o crescimento vertiginoso do uso de tablets e celulares para se conectar à web, diversas empresas já estão se preparando para esse novo cenário ao adotar sistemas de Big Data. Eles permitem entender melhor o que as pessoas estão procurando em um determinado local e, assim, direcionar melhor promoções e até produtos específicos para cada uma delas em tempo real.

Além disso, entender o que é dito pelas pessoas a respeito de uma marca, principalmente nas redes sociais, também pode levar uma empresa a encontrar possíveis problemas antes que eles se tornem maiores. Com um bom monitoramento é possível, também, achar os pontos fracos dos concorrentes no mercado, ou ainda descobrir um assunto que está sendo muito comentado e aproveitar esse buzz para criar promoções temáticas. Uma empresa que pratica isso de forma excepcional no Brasil é o Ponto Frio.

Como você pôde ver nesse post, grandes empresas como Netflix, IBM, Ponto Frio e Facebook já utilizaram o crowdsourcing para aprimorar seus produtos, melhorar seu ambiente de trabalho, alavancar suas vendas e até mesmo salvar vidas em desastres naturais. No entanto, apesar de o conceito do conhecimento da multidão ser algo relativamente simples, para que ele funcione é necessário criar uma cultura de inovação, que esteja interessada em encontrar novas formas de se encarar os problemas e que seja aberta para diferentes opiniões durante o processo. Isso pode dar até mesmo um frio na barriga para algumas marcas, mas é capaz de melhorar (e muito) a forma como ela é vista internamente e até pela sociedade.

Portanto, não tenha medo de ouvir o que as pessoas têm a dizer e nem mesmo de abrir o jogo quanto ao que você planeja e o que você precisa melhorar dentro da empresa. Entenda que a melhor forma de encontrar soluções é avisando sobre os possíveis problemas. E, antes de mais nada, saiba que a comunidade tem muito mais a oferecer para a sua marca do que você imagina.

Se você quiser saber mais sobre o crowdsourcing e como implementá-lo na sua empresa, não hesite em entrar em contato conosco

 

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